HUMANIZAÇÃO, SENTIDO DO TRABALHO E RECONHECIMENTO DOS SEPULTADORES COMO CUIDADORES DA MEMÓRIA COLETIVA
Tatiana Barbiere Santana
Enfermeira. Especialista em Gerontologia, Cuidados Paliativos, Tanatologia e Luto. Doula de Fim de Vida. Diretora do AmorTser – Cursos e Cuidados em Fim de Vida.
E-mail: barbieretatiana@gmail.com
RESUMO EXPANDIDO
Introdução
A morte constitui uma experiência universal da existência humana, embora sua vivência e significação sejam profundamente influenciadas pelos contextos históricos, culturais e sociais. Conforme apontam Ariès (2017) e Elias (2001), as sociedades ocidentais contemporâneas passaram por um processo progressivo de medicalização e institucionalização da morte, deslocando-a dos espaços familiares e comunitários para ambientes especializados. Como consequência, os profissionais que atuam diretamente nos processos funerários e cemiteriais passaram a ocupar uma posição paradoxal: são essenciais para a organização social, mas permanecem frequentemente invisíveis aos olhos da sociedade.
Entre esses trabalhadores destacam-se os sepultadores, responsáveis por atividades relacionadas ao sepultamento, exumação, conservação dos espaços cemiteriais e acolhimento indireto às famílias enlutadas. Estudos evidenciam que esses profissionais enfrentam não apenas riscos físicos e ocupacionais, mas também estigmatização social, invisibilidade, sofrimento emocional e impactos psicossociais decorrentes da convivência cotidiana com a morte (MESSAGE; LUCENA, 2020; ARAÚJO et al., 2017).
Nesse contexto, emerge a proposta formativa Guardiões de Memórias, desenvolvida com o propósito de promover a valorização profissional dos sepultadores, reconhecendo-os não apenas como executores de tarefas técnicas, mas como agentes de cuidado, preservadores da memória coletiva e participantes dos rituais de despedida.
Objetivo
Refletir sobre o papel social, simbólico e humano dos sepultadores a partir da proposta formativa Guardiões de Memórias, discutindo sua relevância para a humanização dos serviços cemiteriais, para a promoção da saúde ocupacional e para o fortalecimento da memória coletiva.
Metodologia
Trata-se de um ensaio teórico-reflexivo, fundamentado em revisão narrativa da literatura científica nacional e internacional sobre tanatologia, sociologia da morte, psicodinâmica do trabalho, saúde ocupacional e memória social. Foram utilizados estudos clássicos e contemporâneos sobre morte e luto, além de pesquisas específicas relacionadas às experiências laborais de coveiros e sepultadores, incluindo estudos fenomenológicos e revisões sistemáticas.
A análise foi articulada aos princípios pedagógicos da formação Guardiões de Memórias, desenvolvida como proposta de educação continuada para profissionais do setor cemiterial.
Desenvolvimento e Discussão
Os cemitérios representam espaços que transcendem sua função sanitária e funerária. Constituem territórios de memória, patrimônio cultural e preservação de histórias individuais e coletivas. Rabelo (2014), em estudo fenomenológico realizado com coveiros do Cemitério do Bonfim, demonstra que esses profissionais desenvolvem relações complexas com a morte, transitando entre a dimensão técnica do trabalho e experiências existenciais profundas relacionadas ao cuidado, à memória e ao reconhecimento da condição humana.
Entretanto, a literatura evidencia que os trabalhadores cemiteriais permanecem socialmente invisibilizados. Monteiro et al. (2017) e Araújo et al. (2017) identificam que a profissão é frequentemente associada ao chamado dirty work (trabalho sujo), categoria utilizada para designar ocupações consideradas socialmente necessárias, mas estigmatizadas. Essa condição produz impactos significativos na construção da identidade profissional, favorecendo processos de sofrimento psíquico, discriminação e baixa valorização social.
Paralelamente aos desafios psicossociais, os sepultadores estão expostos a diversos riscos ocupacionais, incluindo sobrecarga física, exposição climática, agentes biológicos e riscos ergonômicos. Estudos apontam elevada incidência de problemas musculoesqueléticos, acidentes de trabalho e desgaste emocional associados à rotina laboral (MESSAGE; LUCENA, 2020; SANTOS; ALMEIDA, 2017).
Diante desse cenário, a formação Guardiões de Memórias propõe uma mudança paradigmática na compreensão do trabalho cemiterial. A proposta fundamenta-se no reconhecimento de que o sepultador participa ativamente dos rituais de despedida, sustenta simbolicamente momentos de extrema vulnerabilidade humana e contribui para a preservação das narrativas familiares e comunitárias.
O programa formativo articula conhecimentos técnicos, éticos e emocionais, estruturando-se em eixos relacionados à humanização do atendimento, comunicação no luto, saúde mental do trabalhador, legislação funerária, espiritualidade, memória coletiva e valorização profissional. Seu principal diferencial consiste em deslocar o foco exclusivamente operacional para uma compreensão ampliada do cuidado.
Sob essa perspectiva, os sepultadores passam a ser reconhecidos como verdadeiros guardiões da memória social. Seu trabalho não se restringe à condução de procedimentos funerários, mas integra um conjunto de práticas que permitem à comunidade elaborar perdas, preservar legados e sustentar vínculos simbólicos com aqueles que partiram.
Considerações Finais
A invisibilização histórica dos sepultadores reflete o distanciamento contemporâneo da sociedade em relação à morte. No entanto, esses profissionais desempenham papel fundamental na sustentação dos rituais de despedida e na preservação da memória coletiva.
A proposta Guardiões de Memórias apresenta-se como uma estratégia inovadora de educação continuada e humanização dos serviços cemiteriais, promovendo o reconhecimento dos sepultadores como agentes de cuidado e mediadores simbólicos dos processos de luto.
Investir na formação, valorização e proteção desses trabalhadores representa não apenas uma medida de qualificação profissional, mas também um compromisso ético com a dignidade humana, com a memória social e com a construção de uma cultura da morte mais consciente, acolhedora e humanizada.
Palavras-chave: Sepultadores; Memória Coletiva; Humanização; Tanatologia; Luto; Saúde do Trabalhador.
Referências
ARAÚJO, E. M. A.; PEREIRA, L. R. S.; BEZERRA, E. B. N. Saúde laboral dos coveiros e o impacto causado pelo trabalho: uma revisão sistemática. Anais do CONBRACIS, 2017.
ARIÈS, P. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.
ELIAS, N. A solidão dos moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
KOVÁCS, M. J. Educação para a morte. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
MESSAGE, A. S.; LUCENA, A. D. Aspectos ergonômicos do trabalho de coveiros: uma revisão de literatura. Mossoró: UFERSA, 2020.
RABELO, E. Morte e mundo-da-vida: análise fenomenológica de experiências de coveiros no Cemitério do Bonfim. Dissertação (Mestrado em Psicologia). Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2014.
SANTOS, M.; ALMEIDA, A. Coveiros e saúde laboral: pouco mais do que uma reflexão. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional, 2017.
ZONTA, B. M. et al. Tanatologia: uma revisão bibliográfica. Revista Foco, v. 15, n. 2, p. 1–22, 2022.