Artigos Científicos

COLONIALIDADE RELACIONAL, PATRIARCADO INTERNALIZADO E ÉTICA DO CUIDADO:

10 min de leitura

Reflexões críticas sobre coerência política e práticas de cuidado em coletivos latino-americanos

Tatiana Barbiere Santana¹

¹ Enfermeira. Especialista em Gerontologia, Cuidados Paliativos, Tanatologia e Luto. Doula de Fim de Vida. Diretora e Fundadora do AmorTser – Cursos e Cuidados em Fim de Vida. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.
E-mail: barbieretatiana@gmail.com

RESUMO

Este ensaio teórico-crítico decolonial propõe uma reflexão sobre as contradições presentes em coletivos latino-americanos que se identificam com perspectivas decoloniais, feministas e orientadas pelo cuidado. Fundamentado nos referenciais da colonialidade do poder, da ética do cuidado, dos feminismos críticos e da violência simbólica, o texto problematiza a reprodução de estruturas de exclusão, silenciamento e controle em espaços que discursivamente reivindicam horizontalidade, justiça epistêmica e transformação social.

Argumenta-se que a descolonização não se restringe à adoção de um vocabulário político ou acadêmico, mas exige coerência ética entre discurso e prática. Discute-se a colonialidade relacional como categoria analítica para compreender mecanismos contemporâneos de validação, pertencimento e exclusão dentro de movimentos e coletivos de cuidado.

Conclui-se que a construção de práticas verdadeiramente decoloniais exige autocrítica permanente, reconhecimento da pluralidade de saberes e compromisso efetivo com a solidariedade entre povos e territórios latino-americanos.

Palavras-chave: Colonialidade; Decolonialidade; Ética do cuidado; Feminismos decoloniais; Violência simbólica; América Latina.

ABSTRACT

This decolonial theoretical-critical essay reflects upon contradictions present in Latin American collectives that identify themselves with decolonial, feminist and care-oriented perspectives. Based on theories of coloniality of power, ethics of care, critical feminisms and symbolic violence, the text discusses the reproduction of exclusion, silencing and control mechanisms within spaces that rhetorically advocate horizontality, epistemic justice and social transformation.

It argues that decolonization cannot be reduced to the adoption of political or academic discourse but requires ethical coherence between principles and practices. Relational coloniality is proposed as an analytical category to understand contemporary mechanisms of validation, belonging and exclusion within care movements and collectives.

The essay concludes that truly decolonial practices require continuous self-criticism, recognition of epistemological plurality and a concrete commitment to solidarity among Latin American peoples and territories.

Keywords: Coloniality; Decoloniality; Ethics of care; Decolonial feminisms; Symbolic violence; Latin America.

1 Introdução

Os debates acerca da colonialidade e dos processos de descolonização vêm ocupando crescente espaço nos campos da saúde coletiva, educação, ciências sociais, movimentos comunitários e práticas de cuidado. Conceitos como justiça epistêmica, horizontalidade, pluralidade de saberes e ecologia dos conhecimentos passaram a integrar o repertório teórico e político de instituições, coletivos e movimentos sociais comprometidos com transformações estruturais das relações de poder.

Entretanto, a incorporação desses conceitos não garante, por si só, a transformação das práticas relacionais que sustentam tais espaços. Ao contrário, observa-se que estruturas históricas de exclusão e dominação podem permanecer operando mesmo em ambientes que se autodeclaram decoloniais, feministas ou comprometidos com a ética do cuidado.

Nesse contexto, este ensaio busca refletir criticamente sobre a seguinte questão: é possível sustentar um discurso decolonial sem transformar concretamente as relações de poder que organizam os processos de pertencimento, reconhecimento e legitimidade dentro dos coletivos?

A relevância dessa reflexão torna-se particularmente evidente em movimentos latino-americanos dedicados ao cuidado, à educação e à transformação social, nos quais práticas de exclusão, silenciamento e vigilância moral podem coexistir com discursos públicos de emancipação e justiça.

2 Percurso metodológico

Trata-se de um ensaio teórico-crítico de natureza reflexiva, fundamentado em revisão narrativa da literatura e análise conceitual. O ensaio teórico caracteriza-se como modalidade de produção científica voltada à problematização crítica de fenômenos sociais, culturais e políticos, articulando referenciais teóricos diversos na construção de interpretações e proposições analíticas (MENEGHETTI, 2011).

Foram mobilizadas contribuições da teoria decolonial latino-americana, dos feminismos críticos, da ética do cuidado e das teorias do poder simbólico para compreender as contradições presentes em espaços coletivos orientados por princípios emancipatórios.

A análise foi organizada em quatro eixos:

3 Colonialidade para além do colonialismo

O conceito de colonialidade do poder, desenvolvido por Quijano (2005), refere-se à permanência das estruturas de dominação produzidas durante o colonialismo mesmo após a independência formal dos territórios colonizados. A colonialidade não se restringe à exploração econômica ou ao domínio territorial, operando também por meio da produção de hierarquias de saber, autoridade, humanidade e legitimidade.

Segundo Mignolo (2017), a colonialidade mantém-se ativa por meio da definição de quem possui autoridade para produzir conhecimento e determinar quais narrativas são consideradas válidas. Assim, a adoção de discursos críticos não implica necessariamente a superação das lógicas coloniais.

4 Colonialidade relacional e controle das narrativas

Propõe-se a categoria analítica colonialidade relacional para designar formas contemporâneas de exercício do poder expressas pelo controle simbólico dos vínculos, da legitimidade e da circulação das narrativas.

Nesse contexto, determinados sujeitos ou grupos passam a ocupar posições de autoridade capazes de definir:

A disputa desloca-se da análise das ideias para o controle da legitimidade dos sujeitos. A pergunta deixa de ser “o que está sendo dito?” e passa a ser “quem possui autorização para dizer?”.

Esse movimento reproduz mecanismos típicos da colonialidade ao estabelecer centros de validação responsáveis por reconhecer ou desautorizar saberes e experiências. A colonialidade relacional produz exclusões silenciosas, frequentemente justificadas por discursos de proteção, coerência política ou defesa de princípios coletivos.

5 Patriarcado internalizado e reprodução de violências

Os estudos feministas demonstram que o patriarcado não constitui apenas um sistema exercido por homens sobre mulheres, mas uma lógica social que pode ser reproduzida por qualquer sujeito que internalize seus mecanismos de funcionamento (HOOKS, 2020).

Federici (2019) argumenta que práticas de vigilância, punição, disciplinamento e controle podem permanecer presentes inclusive em espaços organizados sob bandeiras progressistas.

Nesse sentido, mulheres também podem reproduzir estruturas patriarcais quando:

A crítica feminista decolonial busca revelar como estruturas históricas permanecem operando nas relações contemporâneas. Assim, a questão central não é quem exerce o poder, mas como esse poder é exercido.

6 Ética do cuidado como prática política

A ética do cuidado, conforme desenvolvida por Tronto (1993), compreende o cuidado como prática ética, social e política fundamentada em atenção, responsabilidade, competência e capacidade de resposta.

Sob essa perspectiva, o cuidado não pode ser reduzido a uma identidade institucional ou discursiva. Exige coerência entre valores declarados e práticas efetivamente realizadas.

Quando espaços que se definem como acolhedores reproduzem silenciamentos, exclusões ou mecanismos de vigilância moral, estabelece-se uma ruptura ética. O discurso do cuidado perde legitimidade quando não encontra correspondência nas relações concretas.

7 Entre o posicionamento moral e o compromisso político

Uma questão relevante para os movimentos contemporâneos refere-se à assimetria entre o posicionamento diante de conflitos interpessoais e diante de desafios estruturais.

Observa-se, frequentemente, intensa mobilização para disputas internas enquanto permanecem secundarizados temas como:

Essa assimetria suscita uma reflexão sobre a função política dos coletivos. Quando a energia institucional é direcionada prioritariamente ao julgamento moral de indivíduos, corre-se o risco de substituir solidariedade política por vigilância moral.

Vigilância moral não constitui prática de cuidado. Controle simbólico não constitui horizontalidade. Silenciamento não constitui decolonialidade.

8 Solidariedade latino-americana como horizonte decolonial

A América Latina compartilha uma história marcada por colonização, exploração econômica, racismo estrutural e deslegitimação sistemática dos saberes produzidos em seus territórios.

Boaventura de Sousa Santos (2019) propõe uma ecologia de saberes fundamentada no reconhecimento da pluralidade epistemológica. Nessa perspectiva, práticas decoloniais exigem cooperação entre territórios, reconhecimento das diferenças, intercâmbio horizontal de conhecimentos, fortalecimento mútuo e solidariedade política.

Walsh (2009) destaca que a decolonialidade representa uma prática cotidiana de criação de novos modos de existência e convivência. Assim, redes latino-americanas comprometidas com o cuidado exigem compromisso concreto com a sustentação mútua dos diferentes projetos, trajetórias e territórios.

9 Considerações finais

A descolonização não pode ser reduzida à incorporação de conceitos ou à adoção de uma identidade política. Ela exige revisão contínua das formas de exercício do poder, disposição para a autocrítica e coerência ética entre princípios e práticas.

As reflexões apresentadas sugerem que a colonialidade pode persistir mesmo em espaços comprometidos discursivamente com a transformação social. Por isso, a prática decolonial requer vigilância crítica permanente sobre os próprios mecanismos de pertencimento, reconhecimento e autoridade.

Nesse sentido, permanece uma questão central para os movimentos contemporâneos de cuidado: estão sendo construídas comunidades de solidariedade ou apenas reorganizadas antigas estruturas de controle sob novas linguagens? A resposta a essa pergunta pode contribuir para avaliar a consistência ética dos coletivos e sua capacidade de favorecer processos emancipatórios na América Latina.

Referências

ARIÈS, P. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

FEDERICI, S. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2019.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 30. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

HOOKS, B. O feminismo é para todo mundo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2020.

LUGONES, M. Colonialidade e gênero. In: HOLLANDA, H. B. (Org.). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019.

MENEGHETTI, F. K. O que é um ensaio teórico? Revista de Administração Contemporânea, Curitiba, v. 15, n. 2, p. 320–332, 2011.

MIGNOLO, W. D. Desobediência epistêmica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017.

QUIJANO, A. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, E. (Org.). A colonialidade do saber. Buenos Aires: CLACSO, 2005.

SANTOS, B. S. O fim do império cognitivo. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

TRONTO, J. Moral Boundaries: A Political Argument for an Ethic of Care. New York: Routledge, 1993.

WALSH, C. Interculturalidade crítica e pedagogia decolonial. In: CANDAU, V. M. (Org.). Educação intercultural na América Latina. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009.

Deixe seu comentário