HISTÓRIA, ANCESTRALIDADE E A TRAJETÓRIA DO AMORTSER
Natureza do manuscrito: Resumo Expandido
Eixo temático: Educação para a Morte, Tanatologia e Cuidados Paliativos
Modalidade: Ensaio Teórico-Reflexivo com abordagem histórico-documental
Tatiana Barbiere Santana
Enfermeira. Especialista em Gerontologia, Cuidados Paliativos, Tanatologia e Luto. Doula de Fim de Vida. Diretora do AmorTser – Cursos e Cuidados em Fim de Vida.
RESUMO EXPANDIDO
Introdução
A crescente medicalização da morte observada nas sociedades ocidentais contemporâneas produziu importantes transformações na forma como indivíduos, famílias e comunidades vivenciam os processos de adoecimento, terminalidade e luto. A transferência progressiva do morrer para instituições de saúde contribuiu para o enfraquecimento das redes comunitárias de cuidado e para o distanciamento social das experiências relacionadas à finitude humana (ARIÈS, 2017; ELIAS, 2001).
Nesse contexto, surgem internacionalmente as End-of-Life Doulas ou Doulas de Fim de Vida, profissionais e voluntários dedicados ao acompanhamento emocional, social, espiritual e prático de pessoas em processo de morrer e de seus familiares.
O presente trabalho propõe uma reflexão histórico-crítica sobre o desenvolvimento do movimento de Doulas de Fim de Vida no Brasil, destacando a trajetória do AmorTser como uma das iniciativas pioneiras na formação de doulas e na promoção da educação para a morte no país.
Objetivo
Refletir sobre o desenvolvimento histórico do movimento de Doulas de Fim de Vida no Brasil, analisando a contribuição do AmorTser para a formação desses profissionais e para a construção de uma cultura do cuidado fundamentada na educação para a morte, na humanização do morrer e na valorização dos saberes ancestrais.
Metodologia
Trata-se de um ensaio teórico-reflexivo, com abordagem histórico-documental, fundamentado em revisão narrativa da literatura sobre Tanatologia, Cuidados Paliativos, Sociologia da Morte, Fenomenologia da Experiência da Morte e Estudos Decoloniais do Cuidado.
A análise foi articulada à documentação institucional e aos materiais pedagógicos produzidos pelo AmorTser entre os anos de 2018 e 2026, compreendidos como fontes documentais que registram o desenvolvimento da proposta formativa e sua inserção no cenário brasileiro da educação para a morte.
Desenvolvimento e Discussão
As origens contemporâneas das Doulas de Fim de Vida encontram-se vinculadas ao movimento hospice e à consolidação dos Cuidados Paliativos, especialmente a partir das contribuições de Cicely Saunders e Elisabeth Kübler-Ross, responsáveis por importantes transformações na compreensão do sofrimento humano diante da terminalidade (KÜBLER-ROSS, 2017; SAUNDERS, 1990).
A proposta das Doulas de Fim de Vida recupera práticas historicamente presentes nas comunidades, oferecendo suporte emocional, facilitação de diálogos familiares, construção de legados, planejamento antecipado de cuidados e acompanhamento durante o processo de luto.
No Brasil, a expansão desse movimento ocorre paralelamente ao crescimento dos Cuidados Paliativos e ao fortalecimento da educação para a morte. Entretanto, a morte permanece como tema frequentemente silenciado na sociedade contemporânea, característica descrita por Ariès (2017) como a “morte interditada”. Nesse cenário, surgem iniciativas voltadas à construção de modelos de cuidado que integrem dimensões físicas, emocionais, sociais, culturais e espirituais.
É nesse contexto que o AmorTser nasce, em 2018, como uma proposta dedicada à formação de Doulas de Fim de Vida, à educação para a morte e à humanização dos processos de morrer e enlutar. Desde sua criação, o projeto desenvolve uma abordagem interdisciplinar que articula conhecimentos provenientes da Tanatologia, dos Cuidados Paliativos, da Gerontologia, das Ciências Humanas, da Espiritualidade e dos Saberes Ancestrais.
Ao longo de sua trajetória, o AmorTser consolidou-se como uma das principais referências brasileiras na formação de Doulas de Fim de Vida, tendo formado mais de 550 profissionais distribuídos em diferentes regiões do Brasil e, posteriormente, em países da América Latina e da Europa. Sua proposta pedagógica ultrapassa a transmissão de conteúdos técnicos, priorizando processos de transformação pessoal, desenvolvimento ético e fortalecimento das competências de escuta, presença e acolhimento.
Um dos principais diferenciais do AmorTser consiste na incorporação de uma perspectiva decolonial do cuidado. A proposta reconhece que os conhecimentos relacionados à morte e ao cuidado foram historicamente produzidos por diferentes povos e culturas, incluindo povos indígenas, comunidades afro-brasileiras e tradições populares frequentemente invisibilizadas pelos processos coloniais de produção do conhecimento.
Nesse sentido, a construção pedagógica do AmorTser estabelece diálogos entre diferentes matrizes culturais. As Moiras, da mitologia grega, convivem simbolicamente com referências oriundas dos povos originários e das tradições afro-brasileiras, como as Yãmĩy dos povos Maxakali, as Pretas Velhas e os Pajés. Essas referências são compreendidas como expressões legítimas de saberes ancestrais relacionados à finitude, à memória, à espiritualidade e à continuidade da vida.
Essa perspectiva dialoga com autores decoloniais latino-americanos que denunciam os processos históricos de invisibilização dos conhecimentos produzidos fora dos centros hegemônicos de poder (QUIJANO, 2005; MIGNOLO, 2017). Assim, o AmorTser propõe um encontro ético entre ciência, espiritualidade e ancestralidade, sem estabelecer hierarquias entre diferentes formas de conhecimento.
Observa-se, portanto, que a atuação das Doulas de Fim de Vida ultrapassa o acompanhamento individual de pacientes e familiares, constituindo-se como prática social, educativa e comunitária. Sua presença favorece a ampliação do debate público sobre morte, autonomia, dignidade, luto e direitos humanos, fortalecendo movimentos de humanização do cuidado e reconstrução dos vínculos comunitários diante da finitude.
Considerações Finais
O movimento das Doulas de Fim de Vida representa uma importante estratégia de reumanização do morrer no contexto contemporâneo, resgatando práticas de cuidado historicamente compartilhadas pelas comunidades e articulando-as às contribuições da ciência contemporânea.
A trajetória do AmorTser evidencia a possibilidade de construção de modelos formativos capazes de integrar produção científica, ética do cuidado, espiritualidade e valorização dos saberes ancestrais. Ao reconhecer a pluralidade de epistemologias relacionadas ao cuidado no fim da vida, a proposta contribui para o fortalecimento da educação para a morte e para a consolidação de uma cultura da finitude mais consciente, inclusiva e socialmente comprometida.
Palavras-chave: Doulas de Fim de Vida; Tanatologia; Educação para a Morte; Cuidados Paliativos; Decolonialidade; Saberes Ancestrais.
Referências
ARIÈS, Philippe. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.
ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
KOVÁCS, Maria Júlia. Educação para a morte: temas e reflexões. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
KOVÁCS, Maria Júlia. Desenvolvimento da Tanatologia: estudos sobre a morte e o morrer. Paidéia, Ribeirão Preto, v. 18, n. 41, p. 457–468, 2008.
KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes, 2017.
LANDSBERG, Paul Ludwig. Ensaio sobre a experiência da morte. Curitiba: Editora UFPR, 2009.
MIGNOLO, Walter. Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF, n. 34, p. 287–324, 2017.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
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SANTANA, Tatiana Barbiere. Documentos institucionais e materiais pedagógicos do AmorTser: Cursos e Cuidados em Fim de Vida (2018–2026). Acervo institucional.
SAUNDERS, Cicely. Hospice and Palliative Care: an Interdisciplinary Approach. London: Edward Arnold, 1990.
ZONTA, Bruna Maria et al. Tanatologia: uma revisão bibliográfica. Revista Foco, v. 15, n. 2, 2022.