{"id":13,"date":"2026-06-25T23:50:54","date_gmt":"2026-06-25T23:50:54","guid":{"rendered":"https:\/\/amortser.com.br\/blog\/?p=13"},"modified":"2026-06-26T00:01:17","modified_gmt":"2026-06-26T00:01:17","slug":"guardioes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amortser.com.br\/blog\/guardioes\/","title":{"rendered":"GUARDI\u00d5ES DE MEM\u00d3RIAS:"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HUMANIZA\u00c7\u00c3O, SENTIDO DO TRABALHO E RECONHECIMENTO DOS SEPULTADORES COMO CUIDADORES DA MEM\u00d3RIA COLETIVA<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tatiana Barbiere Santana<\/strong><br>Enfermeira. Especialista em Gerontologia, Cuidados Paliativos, Tanatologia e Luto. Doula de Fim de Vida. Diretora do AmorTser \u2013 Cursos e Cuidados em Fim de Vida.<br><strong>E-mail:<\/strong> <a href=\"mailto:barbieretatiana@gmail.com\">barbieretatiana@gmail.com<\/a><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">RESUMO EXPANDIDO<\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A morte constitui uma experi\u00eancia universal da exist\u00eancia humana, embora sua viv\u00eancia e significa\u00e7\u00e3o sejam profundamente influenciadas pelos contextos hist\u00f3ricos, culturais e sociais. Conforme apontam Ari\u00e8s (2017) e Elias (2001), as sociedades ocidentais contempor\u00e2neas passaram por um processo progressivo de medicaliza\u00e7\u00e3o e institucionaliza\u00e7\u00e3o da morte, deslocando-a dos espa\u00e7os familiares e comunit\u00e1rios para ambientes especializados. Como consequ\u00eancia, os profissionais que atuam diretamente nos processos funer\u00e1rios e cemiteriais passaram a ocupar uma posi\u00e7\u00e3o paradoxal: s\u00e3o essenciais para a organiza\u00e7\u00e3o social, mas permanecem frequentemente invis\u00edveis aos olhos da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre esses trabalhadores destacam-se os sepultadores, respons\u00e1veis por atividades relacionadas ao sepultamento, exuma\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os cemiteriais e acolhimento indireto \u00e0s fam\u00edlias enlutadas. Estudos evidenciam que esses profissionais enfrentam n\u00e3o apenas riscos f\u00edsicos e ocupacionais, mas tamb\u00e9m estigmatiza\u00e7\u00e3o social, invisibilidade, sofrimento emocional e impactos psicossociais decorrentes da conviv\u00eancia cotidiana com a morte (MESSAGE; LUCENA, 2020; ARA\u00daJO et al., 2017).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, emerge a proposta formativa <strong>Guardi\u00f5es de Mem\u00f3rias<\/strong>, desenvolvida com o prop\u00f3sito de promover a valoriza\u00e7\u00e3o profissional dos sepultadores, reconhecendo-os n\u00e3o apenas como executores de tarefas t\u00e9cnicas, mas como agentes de cuidado, preservadores da mem\u00f3ria coletiva e participantes dos rituais de despedida.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Objetivo<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Refletir sobre o papel social, simb\u00f3lico e humano dos sepultadores a partir da proposta formativa <strong>Guardi\u00f5es de Mem\u00f3rias<\/strong>, discutindo sua relev\u00e2ncia para a humaniza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os cemiteriais, para a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade ocupacional e para o fortalecimento da mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Metodologia<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se de um ensaio te\u00f3rico-reflexivo, fundamentado em revis\u00e3o narrativa da literatura cient\u00edfica nacional e internacional sobre tanatologia, sociologia da morte, psicodin\u00e2mica do trabalho, sa\u00fade ocupacional e mem\u00f3ria social. Foram utilizados estudos cl\u00e1ssicos e contempor\u00e2neos sobre morte e luto, al\u00e9m de pesquisas espec\u00edficas relacionadas \u00e0s experi\u00eancias laborais de coveiros e sepultadores, incluindo estudos fenomenol\u00f3gicos e revis\u00f5es sistem\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise foi articulada aos princ\u00edpios pedag\u00f3gicos da forma\u00e7\u00e3o <strong>Guardi\u00f5es de Mem\u00f3rias<\/strong>, desenvolvida como proposta de educa\u00e7\u00e3o continuada para profissionais do setor cemiterial.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Desenvolvimento e Discuss\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os cemit\u00e9rios representam espa\u00e7os que transcendem sua fun\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria e funer\u00e1ria. Constituem territ\u00f3rios de mem\u00f3ria, patrim\u00f4nio cultural e preserva\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias individuais e coletivas. Rabelo (2014), em estudo fenomenol\u00f3gico realizado com coveiros do Cemit\u00e9rio do Bonfim, demonstra que esses profissionais desenvolvem rela\u00e7\u00f5es complexas com a morte, transitando entre a dimens\u00e3o t\u00e9cnica do trabalho e experi\u00eancias existenciais profundas relacionadas ao cuidado, \u00e0 mem\u00f3ria e ao reconhecimento da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, a literatura evidencia que os trabalhadores cemiteriais permanecem socialmente invisibilizados. Monteiro et al. (2017) e Ara\u00fajo et al. (2017) identificam que a profiss\u00e3o \u00e9 frequentemente associada ao chamado <em>dirty work<\/em> (trabalho sujo), categoria utilizada para designar ocupa\u00e7\u00f5es consideradas socialmente necess\u00e1rias, mas estigmatizadas. Essa condi\u00e7\u00e3o produz impactos significativos na constru\u00e7\u00e3o da identidade profissional, favorecendo processos de sofrimento ps\u00edquico, discrimina\u00e7\u00e3o e baixa valoriza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paralelamente aos desafios psicossociais, os sepultadores est\u00e3o expostos a diversos riscos ocupacionais, incluindo sobrecarga f\u00edsica, exposi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, agentes biol\u00f3gicos e riscos ergon\u00f4micos. Estudos apontam elevada incid\u00eancia de problemas musculoesquel\u00e9ticos, acidentes de trabalho e desgaste emocional associados \u00e0 rotina laboral (MESSAGE; LUCENA, 2020; SANTOS; ALMEIDA, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante desse cen\u00e1rio, a forma\u00e7\u00e3o <strong>Guardi\u00f5es de Mem\u00f3rias<\/strong> prop\u00f5e uma mudan\u00e7a paradigm\u00e1tica na compreens\u00e3o do trabalho cemiterial. A proposta fundamenta-se no reconhecimento de que o sepultador participa ativamente dos rituais de despedida, sustenta simbolicamente momentos de extrema vulnerabilidade humana e contribui para a preserva\u00e7\u00e3o das narrativas familiares e comunit\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O programa formativo articula conhecimentos t\u00e9cnicos, \u00e9ticos e emocionais, estruturando-se em eixos relacionados \u00e0 humaniza\u00e7\u00e3o do atendimento, comunica\u00e7\u00e3o no luto, sa\u00fade mental do trabalhador, legisla\u00e7\u00e3o funer\u00e1ria, espiritualidade, mem\u00f3ria coletiva e valoriza\u00e7\u00e3o profissional. Seu principal diferencial consiste em deslocar o foco exclusivamente operacional para uma compreens\u00e3o ampliada do cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob essa perspectiva, os sepultadores passam a ser reconhecidos como verdadeiros guardi\u00f5es da mem\u00f3ria social. Seu trabalho n\u00e3o se restringe \u00e0 condu\u00e7\u00e3o de procedimentos funer\u00e1rios, mas integra um conjunto de pr\u00e1ticas que permitem \u00e0 comunidade elaborar perdas, preservar legados e sustentar v\u00ednculos simb\u00f3licos com aqueles que partiram.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A invisibiliza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos sepultadores reflete o distanciamento contempor\u00e2neo da sociedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte. No entanto, esses profissionais desempenham papel fundamental na sustenta\u00e7\u00e3o dos rituais de despedida e na preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A proposta <strong>Guardi\u00f5es de Mem\u00f3rias<\/strong> apresenta-se como uma estrat\u00e9gia inovadora de educa\u00e7\u00e3o continuada e humaniza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os cemiteriais, promovendo o reconhecimento dos sepultadores como agentes de cuidado e mediadores simb\u00f3licos dos processos de luto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Investir na forma\u00e7\u00e3o, valoriza\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o desses trabalhadores representa n\u00e3o apenas uma medida de qualifica\u00e7\u00e3o profissional, mas tamb\u00e9m um compromisso \u00e9tico com a dignidade humana, com a mem\u00f3ria social e com a constru\u00e7\u00e3o de uma cultura da morte mais consciente, acolhedora e humanizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Palavras-chave:<\/strong> Sepultadores; Mem\u00f3ria Coletiva; Humaniza\u00e7\u00e3o; Tanatologia; Luto; Sa\u00fade do Trabalhador.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ARA\u00daJO, E. M. A.; PEREIRA, L. R. S.; BEZERRA, E. B. N. <strong>Sa\u00fade laboral dos coveiros e o impacto causado pelo trabalho: uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica.<\/strong> Anais do CONBRACIS, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ARI\u00c8S, P. <strong>Hist\u00f3ria da morte no Ocidente.<\/strong> Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ELIAS, N. <strong>A solid\u00e3o dos moribundos.<\/strong> Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KOV\u00c1CS, M. J. <strong>Educa\u00e7\u00e3o para a morte.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Casa do Psic\u00f3logo, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MESSAGE, A. S.; LUCENA, A. D. <strong>Aspectos ergon\u00f4micos do trabalho de coveiros: uma revis\u00e3o de literatura.<\/strong> Mossor\u00f3: UFERSA, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RABELO, E. <strong>Morte e mundo-da-vida: an\u00e1lise fenomenol\u00f3gica de experi\u00eancias de coveiros no Cemit\u00e9rio do Bonfim.<\/strong> Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Psicologia). Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SANTOS, M.; ALMEIDA, A. <strong>Coveiros e sa\u00fade laboral: pouco mais do que uma reflex\u00e3o.<\/strong> <em>Revista Portuguesa de Sa\u00fade Ocupacional<\/em>, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ZONTA, B. M. et al. <strong>Tanatologia: uma revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica.<\/strong> <em>Revista Foco<\/em>, v. 15, n. 2, p. 1\u201322, 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>HUMANIZA\u00c7\u00c3O, SENTIDO DO TRABALHO E RECONHECIMENTO DOS SEPULTADORES COMO CUIDADORES DA MEM\u00d3RIA COLETIVA Tatiana Barbiere SantanaEnfermeira. Especialista em Gerontologia, Cuidados Paliativos, Tanatologia e Luto. 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